Essa (falsa) polêmica com as latas de leite Moça revela certa dose de ignorância.


Fui a Cuba nos anos 80 e, além dos casarões em ruínas, dos automóveis-zumbis e dos mojitos sorvidos no fim da tarde, vendo o Caribe se esborrachar no Malecón, o que mais me impressionava eram as prateleiras vazias.


Armazéns, lojas, quiosques, biroscas, tudo tinha um ar desolador, pós apocalíptico. Simplesmente não havia produtos à venda.


O país atravessava o que os cubanos chamavam de “período especial”, uma espécie de arrocho do aperto do ajuste da contingência da escassez da penúria – provocado, claro, pelo embargo americano etc etc etc.


Cada família tinha uma caderneta de produtos racionados (a “libreta”). Nela estava consignada a cota que cabia a cada um naquele paraíso socialista. Algo como meio quilo de frango por mês, se frango houvesse. E não havia. Quando aparecia algum produto (qualquer que fosse), formavam-se filas enormes – porque ninguém sabia quando outro caminhão de banana, por exemplo, iria dar as caras por Havana.


Num dos mercados vazios encontrei a penúltima coisa que imaginaria encontrar (a última seria Coca Cola). Era leite condensado.


Latas e mais latas de leite condensado, caprichosamente espaçadas nas prateleiras.

Como assim, faltava tudo (sabonete, pasta de dente, papel higiênico) e tinha leite condensado? Não havia como lavar as mãos antes do almoço, não havia o que almoçar, não havia como escovar os dentes depois do almoço ou como limpar o traseiro após a inexistente digestão e excreção (ok, estou exagerando um pouco, mas era por aí) – e o pudim de leite moça estava garantido?


Num encontro clandestino com cubanos (isso eu conto outro dia), comentei sobre esse paradoxo. E todos ficaram me olhando com cara de tacho. Eles é que não entendiam o fato de eu não entender. Afinal, leite condensado servia para fazer… leite, não sobremesa.

Eu não sabia disso.


Eu sabia que leite em pó servia para fazer leite. Que glândulas mamárias serviam par fazer leite.Mas não imaginava que leite condensado também tivesse esses dons.

Pois o leite condensado tem esse nome porque é leite e está condensado. Devidamente diluído, vira leite expandido – vulgo leite.


Achei um desperdício usar uma das sete maravilhas da natureza (as demais são a goiabada cascão, a água de coco, o pão de queijo e outras que não vêm ao caso agora) para fazer um reles leite, desses que se compra na garrafa, no saco ou na caixinha.

Quem já foi a Cuba entende que a utilidade do leite condensado vai muito além do café da manhã presidencial ou da sobremesa de domingo. Aquilo é alimento não perecível (ou quase imperecível), fácil de estocar. Alimento, não guloseima.


Por isso é comprado para uso das tropas, ou para populações carentes.

Outros itens das listinha de compras do Executivo podem ser motivo de chacota (refrigerante, chantili, amendoim torrado, vinho). Mas o leite condensado, não, senhores.


Quem já se embrenhou na selva ou visitou Cuba (as situações são bem similares) não embarca nessa polêmica.

4 comentários em “

    1. Confesso que constatei, com decepção, a escassez de crônicas por aqui. Não ousei questionar, mas, vendo outra leitora ter a coragem que me faltou e tranquilizando-me com a resposta do cronista, decidi me pronunciar: Eduardo, continue deixando seus regalos em meu correio eletrônico (gostou?). Embora eu leia as crônicas nas redes sociais, prefiro tê-las aqui, listadas cronologicamente. Professor adora essa organização! Obrigada!

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      1. Sônia, este blogue está em reforma. Logo estará de cara nova, e voltarei a postar por aqui.
        Um grande abraço!

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